Enquanto a taxa básica de juros, Selic segue elevada e vem dominando o noticiário econômico nos últimos tempos, o mercado imobiliário de Cuiabá e Várzea Grande mantém ritmo consistente, com lançamentos disputados, estoque girando e novos projetos no radar.
A taxa Selic vem crescendo gradativamente desde o pós-pandemia para conter a crise e inflação, saltando de 2% em 2020 até 15% ao ano em 2026, o maior nível em duas décadas, patamar que não era visto desde 2006, quando chegou a 15,25%.
Mesmo com os juros nesse nível, o setor imobiliário não desacelerou como muitos previam. De acordo com entrevista concedida ao portal MT Econômico, o diretor de Produtos da Construtora São Benedito, Gilson Porto, avalia que a alta da Selic impacta o mercado em duas frentes, encarece o crédito para as construtoras e aumenta a cautela do consumidor. Ainda assim, segundo ele, o efeito não é uniforme e empresas com histórico sólido e bom relacionamento bancário atravessam o ciclo com mais estabilidade.
Segundo o executivo, a construtora mantém linhas com instituições como Caixa, Banco do Brasil, Santander e BRB, o que reduz a exposição ao aperto de crédito. “Quando o dinheiro fica mais caro, o mercado não para, ele se torna mais seletivo”, afirma Porto, destacando que grandes players tendem a continuar tendo acesso a funding.
No balcão de vendas, o consumidor fica mais prudente, mas há um ponto relevante, o financiamento habitacional nem sempre acompanha diretamente a Selic. Parte das operações estão vinculadas à poupança, ao FGTS e ao Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), fontes que não dependem exclusivamente da taxa básica. Nesse contexto, há empreendimentos com taxas próximas de 11,25% ao ano, consideradas competitivas diante do cenário macroeconômico.
Janela de oportunidade antes da queda dos juros
Apesar da Selic em alta ter pressionado diversos setores, o mercado imobiliário vive um momento estratégico. A expectativa predominante entre analistas é de que, a partir das próximas reuniões do Copom, de março em diante, comece um ciclo gradual de redução dos juros. Caso isso se confirme, a tendência é de que o crédito se torne mais barato ao longo dos meses seguintes.
Na avaliação de Gilson Porto, esse movimento pode aquecer ainda mais a demanda e, consequentemente, pressionar os preços dos imóveis. “Agora é o melhor momento para comprar. Quando a Selic começar a cair, os preços tendem a subir”, afirma. A leitura do executivo é de que até o período de junho ou julho desse ano, pode representar uma janela estratégica de compra ao consumidor e investidor, pois os juros ainda devem estar num patamar elevado, mas com expectativa de preços que ainda não terão absorvido totalmente esse novo ciclo de queda da Selic.
Mercado aquecido mesmo com cenário desafiador
Dados divulgados neste mês pelo Sindicato da Habitação (Secovi-MT) mostram que o último trimestre de 2025 movimentou R$ 1,5 bilhão em vendas, com cerca de 3,2 mil imóveis comercializados apenas nos três últimos meses do ano. No acumulado de 2025, foram R$ 5,7 bilhões em vendas e aproximadamente 13,6 mil unidades negociadas, representando crescimento de 17,99% no valor comercializado e de 24,87% no número de imóveis vendidos.
No cenário nacional, estudo recente da ABRAINC, publicado pelo MT Econômico, aponta que o segmento de médio e alto padrão (MAP) registrou aumento de cerca de 20% no Valor Geral de Vendas (VGV) em 2025, alcançando R$ 30 bilhões, frente aos R$ 25 bilhões do ano anterior, sinal de resiliência mesmo em ambiente de juros elevados.
Em Mato Grosso, o contexto econômico traz desafios adicionais. Pesquisas do SPC Brasil indicam que aproximadamente 1,5 milhão de habitantes do Estado estão negativados, com restrição de crédito. Considerando uma população estimada em torno de 3,4 milhões de pessoas, isso representa cerca de 47% dos mato-grossenses fora do mercado formal de consumo. Ainda assim, o desempenho do setor imobiliário tem surpreendido.
Segundo a São Benedito, 2025 foi marcado por forte desempenho tanto em lançamentos quanto em empreendimentos prontos. Em novos projetos, a empresa registrou média de 85% de vendas nas fases iniciais. Já nos produtos concluídos, o volume comercializado superou o de 2024.
Novo projeto com conceito de “Clube Resort”
Entre as novidades da construtora São Benedito para esse ano, Porto cita a aquisição de uma área de um clube urbano, em localização estratégica, com acesso a comércio, escolas, hospitais, Parque das Águas, Avenida Miguel Sutil e Avenida do CPA.
A proposta, segundo ele, é de um empreendimento residencial com conceito de lazer ampliado. “Entre um clube e um resort, será um projeto que deve esgotar muito rápido as vendas”, descreve, citando itens como minigolfe, quadra de beach tennis, boliche, campo de futebol, piscina com raia e jacuzzi. A construtora pretende fazer uma apresentação mais completa em um meeting no próximo mês de março, quando deve abrir oficialmente o projeto ao mercado.
Land bank para 10 anos e expansão estruturada
O plano de longo prazo da São Benedito também aparece com força. “Eu tenho land bank para dez anos”, afirma Porto, descrevendo um pipeline escalonado por tipologias, 2, 3 e 4 quartos, e por compras de terrenos em diferentes regiões estratégicas da capital.
Para 2026, a projeção divulgada à imprensa é de absorver R$ 810 milhões de VGV apenas em Cuiabá, o dobro do registrado em 2024 pela construtora. A estratégia envolve portfólio diversificado, com empreendimentos em regiões como Jardim das Américas, Goiabeiras, Santa Rosa e Centro Político Administrativo, além da consolidação de novos projetos com foco em médio, alto e altíssimo padrão.
Ao final da entrevista ao MT Econômico, Gilson Porto reforça que o investidor precisa olhar além do curto prazo. “Embora a taxa Selic elevada torne aplicações financeiras mais atrativas no imediato, o imóvel combina potencial de valorização patrimonial com geração de renda por meio de aluguel recorrente, configurando uma alternativa estratégica em um momento de transição no ciclo de juros”, finaliza.